Sexo ágil

As andorinhas sobrevoavam todo o prédio. Faziam um verdadeiro ballet. O clássico, por sinal. A tarde era fresca e agradável. As folhas cobriam as calçadas como um tapete da natureza. Coisas de final de verão. Todas essas peculariedades da vida eram o mais belo sinal de que a estação se despedia dando espaço para o outono. O mês de março chegara...

Naquela tarde de oito de março o salão principal da Academia Brasileira de Letras estava impecável. As cortinas haviam sido trocadas especialmente para a ocasião. Todas rosas, cor símbolo do "sexo ágil". As mesas foram concatenadas em círculo para que todas as convidadas pudessem se entreolhar e ter uma visão ampla do local. Sobre cada uma das mesas havia uma rosa vermelha: uma singela homenagem dos organizadores.

O sino da Igreja mais próxima soava. Cinco horas. As convidadas estavam para chegar. Seu Raimundo, o porteiro, estava ansioso para recebê-las, afinal, para aquela reunião estariam presentes grandes nomes da literatura brasileira. Antes mesmo que pudesse pensar na grandiosidade daquilo tudo, a primeira convidada lhe desejava boa tarde.

- Boa Tarde! - o sotaque nordestino identificava.

- Boa Tarde - Seu Raimundo estremeceu, estava diante de Raquel de Queiroz.

- As outras convidadas já chegaram? - Raquel perguntou docemente com aquele ar calmo e sossegado. Seu Raimundo com intuito de lhe fazer uma gentileza disse:

- É a primeira dona Raquel. A primeira mulher a entrar em nossa Academia Brasileira de Letras. - Aquele jogo de palavras criado por Seu Raimundo foi algo sublime para Raquel que sorriu e sentiu-se honrada com a lembrança.

Mais adiante uma limusine estaciona em frente ao prédio: dele sai uma mulher morena e de cabelos nos ombros. De traços fortes e fisionomia marcante ela se dirigiu para a portaria.

- Oi...O salão principal por favor?- perguntou a mulher com poucas palavras.

- Oi! Sim...a senhora segue esse corredor e na segunda porta à esquerda já estará no salão. - A mulher com quem acabava de trocar meia dúzia de palavras era a grandiosa Clarice Lispector.

- E nos próximos minutos outros grandes nomes femininos de nossa literatura passaram por Seu Raimundo. Lígia Fagundes Telles e Zélia Gattai chegaram juntas. Seu Raimundo ouvira uma conversa sobre uma possível obra com poemas, contos e crônicas de escritoras brasileiras. Ele mesmo ficou muito feliz com o que tinha acabado de ouvir.

Por volta das cinco e meia todas as convidadas estavam no salão da Academia e as mesas estavam completas.

Cecília Meirelles tomou a palavra para iniciar a reunião. A escritora mais do que ninguém se preocupava com o tempo. Não em perdê-lo mas sim em cultivá-lo. O início da reunião se fazia necessário.

- Boa tarde jovens. Minhas saudações e agradecimentos a todas que estão aqui presentes. Ainda mais em um dia tão especial como esse: oito de março. - Todas aplaudiram àquelas primeiras palavras.

Zélia Gattai explicou às demais o motivo daquele encontro. Lígia havia tido a brilhante idéia de reunir, em uma obra, os grandes nomes femininos de nossa literatura. Fazer uma junção de estilos, vanguardas e nomes. Porém alguém interviu:

- Em uma única obra? Impossível!- uma senhora de fala pausada exclamou. Todas se entreolharam. Para as jovens escritoras que desconheciam tal mulher. Raquel de Queiroz fez questão de apresentá-las para as demais. E apresentou Hilda Hilst para todas. A própria sugeriu:

- Façamos edições de uma vasta obra... muitas!

Todas concordaram. E em meio a tantos detalhes como o gênero e o formato que cada uma delas usaria, datas, enredos, os risos e a disposição de todas eram um convite e servia de motivação para qualquer uma que se mostrava insegura diante à proposta.

Zélia quis tocá-las ainda mais. E com suas palavras doces e envolventes lhes disse:

- Para nós a publicação de uma obra como essa é o símbolo da luta feminina e o reconhecimento dentro de uma sociedade. Vitória nossa não só na sociedade dos homens, mas também no universo das palavras e das metáforas...

A reunião prosseguiu e Seu Raimundo, lá da portaria, ouvia risos, aplausos e muitas gargalhadas. Não via a hora de poder ler a primeira edição daquela obra que tanto discutiam e programavam. Não via a hora.

Movimento contra a dependência masculina

Você vive anos e mais anos estudando. Cultiva amizades. Mora com a família e de repente, não tão de repente pois, afinal, você até que tem uma certa familiaridade com o sexo masculino, através de primos, irmãos, pai, avô, amigos... eis que ele surge na sua vida: o namorado.

Vocês se conhecem, começam a sair, a se telefonar, se veêm pelo menos setecentas vezes por semana e, assim, o sábado e o domingo, únicos dias exclusivamente reservado para as baladas e saídas mais inesperadas, como assistir filme na casa daquela sua amiga que tem aquele amigo...hum... Bem... voltando....Você troca tudo isso, que para você era tudo, por ele.

Os primeiros meses de namoro. As idas incansáveis ao cinema. Os beijos que não tem fim. Os telefonemas que duram horas. Você começa a ver que o aniversário daquele seu primo pestinha ou aquela macarronada de domingo na casa da sua tia fofoqueira, não é tão chato assim, afinal você está com ele. Se for pra ir a algum lugar não há outra pessoa melhor pra ir com você, só ele. Até mesmo se for pra ir à padaria. Ele transforma a rotina, o casual, a mesmice, na coisa mais especial no mundo.

Tudo parece tão completo, tão perfeito. Eis que surgem as juras de amor: os necessários e os eternos "eu te amo". A sua vida começa a não ter o mínimo sentido sem ele. E ai de quem disser alguma coisa a respeito ou fazer algum comentário do jeito dele, é ao mesmo tempo declarar guerra contra você.

Só que os dias, as semanas e os meses passam e você descobre que o príncipe, não é tão príncipe assim. Ele tem defeitos. Não te liga mais mil vezes ao dia, parece distante e qualquer coisa que você diz, ele interpreta como um insulto, uma provocação. É hora de dar um tempo.

Agora você se encontra no seu quarto triste, sozinha, se sentindo a pior das criaturas do mundo. Derrama lágrimas. Lembra dos amigos, aqueles das baladas, das saídas inesperadas. Você não fala com eles há tempos. Olha no espelho e já não se acha tão linda como antes. Precisa de alguém que lhe diga que você é maravilhosa e charmosa mesmo quando está com aquela cara amassada, com o cabelo despenteado.

Nesse momento você promete a si mesma que vai mudar. Que homem nenhum vai te prender e fazer você esquecer da vida, das baladas, das amizades...Na verdade, eles não têm culpa. A gente é que tem culpa. Culpa de sermos mulheres. Mulher quando se apaixona perde o rumo, tudo deixa de ser prioridade. O amado é a prioridade. Aí você conclui: Que tal um movimento contra a dependência masculina? De certo, você vai encontrar milhares de mulheres para lutar pela mesma causa, mas vai perdê-las pouco a pouco, quando cada uma delas se apaixonar novamente. Até chegar, mais uma vez, ele: o seu amor.

 

 

 

 

"Ô Abre Alas que eu quero me suicidar"

"O Brasil começa depois do Carnaval!". Essa frase que mais parece um lema nacional, me deixa indignada. Como um país pode adiar tudo para depois de uma festa popular?

Ligo a TV. No jornal vejo as crianças todas cheias de entusiasmo e fantasiadas. Minha mãe acabou de comentar que eu era igualzinho e me lembrou da minha hilária fantasia de Bozo.

- Mãe, como você me deixou pular com aquela roupa de palhaço?-pergunto.

- Foi você que escolheu filha, na verdade você queria a do Jaspion mas como não encontrou acabou comprando a do Bozo.- Jaspion? Putes, é o fim... que ninguém saiba disso. Pausa!

Meu ódio pelo Carnaval não chega a ser tão intenso. Moderado por sinal. É que hoje em dia a festa possui fortes conotações. A sexual é uma delas. A alcoólica é outra. É que as pessoas se transformam nesses cinco dias. Tem gente que de Paulão durante semana vira Paulinha no Carnaval e vice-versa. Perigoso. Ninguém pula com primeiras intenções. Segundas, lógico! Pausa!

Os antigos comentam dos bailes, de como era agradável e inesquecível ‘brincar’ Carnaval. Os bailes. As máscaras. Carnaval era glamour. Hoje em dia a expressão brincar já foi enterrada. Hoje se pula Carnaval. Menos mal. Eu também prefiro pular ‘o’ Carnaval.

Alguns amigos me convidaram para viajar. Devia ter ido. Devia ter aceito a proposta do meu pai de irmos passar o Carnaval no sítio do primo dele, aliás, o primo, a esposa e mais seus dois filhos pestinhas. Pausa!

Mudo o canal. A repórter está ao vivo no meio da multidão em Salvador. Por dinheiro nenhum eu estaria no lugar dela. Aquele povo suado, descabelado, sem forças, sem dormir, correndo atrás do Trio...e o pior: eles pagam para estar lá! Minha gente! Pausa!

Desisto. A TV não tem nada de "digerível". Acesso a Internet. Outra decepção, na página principal "confira agora o show do Araketu", "veja as fotos das musas desse carnaval", "Gisele Budchen no trio de Daniela Mercury". O pior: eu pago por isso! Minha gente! Que pausas o quê! É muita bagunça no país do Carnaval.

[ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, Mulher, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Música, Arte e cultura