Tio André em...

Episódio 2: O Pão Duro

 

Definitivamente as mulheres de hoje surpreendem dia após dia nós, seres do sexo masculino. E como. Outro dia eu estava no apartamento de minha irmã Cláudia, na cidade de Catanduva, interior do Estado, quando minha sobrinha caçula, a doce Clarice, de apenas 17 anos, indagou:

-Tio, o que achou da minha cinturinha?-disse Clarice em tom de superioridade e com uma auto-estima de sete andares.

-Um violão, não?-interrompeu Cláudia, no estilo mãe coruja. Bem, de violão a cinturinha de Clarice nada tinha. Talvez, se a comparação era para ser mantida em um nível de instrumentos musicais, sua cintura estivesse mais para uma sanfona. E eu, como o tio ‘gente boa’, quis ser gentil...

-Meus parabéns querida! Que cinturinha de vespa hein! Deve dar um trabalho imenso mantê-la. Abdominais, dietas, cremes...

-Trabalho? – minha irmã riu.

-Isso se chama lipoaspiração Tio Dé. Fiz há 40 dias.

-E ainda não terminei de pagar! –disse Cláudia em um tom ao mesmo tempo satírico e orgulhoso. "Lipoaspiração Tio Dé. E ainda não terminei de pagar", o que acontece com essas duas? Elas estavam loucas e queriam me transformar em um? Primeiro, onde já se viu uma adolescente de 17 anos fazer uma cirurgia plástica? Mal saiu das fraldas a menina. Segundo, não me esqueço que há pelo menos dois meses Cláudia havia me ligado em São Paulo, pedindo um dinheiro emprestado. Sei...Tsc, tsc, tsc...Essas mulheres.

Mas eu já devia ter me acostumado com os sonhos de consumo do sexo feminino. Maria, minha ajudante, a moça da faxina do meu apartamento, conversava dia desses com a empregada da vizinha, no meio do expediente:

-Lourdes, tô juntando um dinheirinho pra dar uma levantada na comissão de frente. – exclamou em alto e bom som. Dias depois do episódio, cotuquei:

-Comissão de frente, Maria?

-É Seo André. Minha poupança no Bradesco é pra erguer a Comissão, o senhor sabe, depois dos 40, nem com reza braba...

-Como? – não conseguia concatenar as informações.

-Silicone, homem de Deus!-Silicone? Aquele para os peitos? Meu Deus! A mulher não tem nem casa para morar. E eu achando que a Comissão de Frente tinha a ver com o Carnaval, Desfile de Escola de Samba, já que a Maria adora um batuque. Sonho é sonho. Eu respeito. Mas as pessoas dão valor a cada coisa. No caso da Maria, coisas. Duas por sinal.

Outro dia, no Shopping Center, o susto foi ainda maior. Eu, em plena praça de alimentação, sossegado, passeando, quando uma mulher aos gritos me atacou:

-Drezão! Quanto tempo!-Minha cara foi hilária. O que era aquele ‘tribufu’ me abraçando? E ainda me chamava por um apelido dos tempos de faculdade?

-Não lembra mais dos amigos? Não me reconhece Drezão?

–Putes, foi aí que me recordei daquele branco do olho. Era Verônica! Velha amiga. Nos formamos juntos na USP. Mas seu rosto estava mais a ‘La Gloria Meneses’.

-Mas mulher você está muito diferente! Está...- Tentei buscar palavras. Procurei redimir a minha cara de espanto.

-Exótica! – foi a melhor palavra que havia encontrado, em coisa de segundos, uau...

-Quanta gentileza Drezão. Sabia que ia perceber. Puxei um pouquinho as pálpebras, levantei os cantinhos da boca, apliquei Botox nas linhas de expressão...-ela não precisava me detalhar mais uma intervenção cirúrgica se quer. Sabia que para tamanha mutação, havia muita mão de obra. Mas ela estava feliz e sorridente. Contou-me que há anos reunia coragem para a façanha. E assim foi para a faca.

Dia desses, após um layout no espelho virei para minha sobrinha, a Clarice, e matei minha curiosidade:

-É caro fazer uma lipoaspiração minha querida?

-Por que Tio Dé? Ta querendo fazer uma? – Clarice gargalhou como costumam fazer esses aborrescentes.

-Não é para mim. –tentei escapar. Não podia mostrar que tinha interesse de me submeter a uma cirurgia plástica, ou seja, que estava preocupado com a minha aparência, de fato.

-Maria que me perguntou. É que ela está juntando um dinheirinho, e gostaria...

-R$5 mil. Clarice disse com a maior naturalidade, como quem havia falado o valor da passagem do ônibus. Que absurdo! Me calei. Não adianta travar um debate com esses adolescentes. Certamente ela iria levantar vários argumentos, ‘tio André, eu estou me curtinho tanto agora’, ‘é suuuper difícil perder barriga’, com aquele tom de voz que me irrita...Bem, e eu relutando há meses em gastar R$2 mil para trocar o meu Opala 82. Tsc, tsc, tsc...tem gente que não tem o pé no chão. Mas eu tenho. Essas mulheres, vou te contar...

O famoso Bar do Vitachi

   E começava mais uma reunião de pauta. Às terças como sempre. Meu editor queria ‘a matéria’ para aquela edição do jornal. Cada um dos repórteres fez a sua sugestão de pauta. Ele não ficou satisfeito, relutou:

- Pô gente! Eu quero é coisa nova. – Aquele "Pô gente!" nos rendia algumas gotas de saliva no rosto. Mas no fundo, por mais aquela ladainha se repetisse a cada reunião, eu entendia o que o meu ‘querido’ editor esperava de nós, pobres repórteres. Queria algo que fugisse do comum.

A reunião tinha acabado e agora era a fome que me pressionava. Até cheguei a comentar com o meu editor e ele recomendou:

- Vai no Bar do Vitachi!

- Vitachi, onde mesmo? - eu sabia que já havia escutado esse nome, mas minha memória não ajudava.

- Pô cara, bem em frente à nossa redação! – Ele me explicou e lógico, lançou mais saliva em meu rosto.

Eram quase 11:30h quando desci as escadas da nossa redação que ficava na Santa Izabel, uma das principais avenidas de Barão. À minha frente, tão à minha frente estava o famoso Bar do Vitachi. Pequeno e bastante movimentado. Entrei no Bar. Observei o ambiente. Pedi um salgado para o senhor que estava atrás do balcão. Indaguei:

- O senhor que é o famoso Vitachi?- Ele me mediu.

- Sou.

- Faz tempo que o senhor tem o bar aqui em Barão? - Ele mais uma vez me observou.

- Há muito tempo.

O Bar do Vitachi é um lugar bem pequenininho. De um lado o balcão com os salgados. Em uma das paredes um pequeno mural com algumas notícias que Vitachi recorta do jornal. Há também uma foto de seu pai, de quem ele fala com muito orgulho:

-Meu pai foi carroceiro. Em dia de chuva era um sacrifício pra ele chegar em Campinas. Lama para tudo quanto era lado.

O que mais me surpreendeu foi o estilo irreverente que o Vitachi trata seus clientes. Os mais chegados entram no Bar e já escolhem o salgado e se servem. Lá freqüentam jovens, moças, pais com filhos...

Enquanto comia a deliciosa empada de palmito, Vitachi falou um pouco de Barão. Disse-me que ali precisa de investimento, de cuidados, de gente que goste e que tenha amor pelo distrito. E quando falei de violência em Barão, ele já tinha a resposta:

- Isso hoje em dia tem em qualquer lugar!- percebi que Vitachi era um fiel e legítimo morador de Barão.Pronto. Eu ia escrever sobre o Vitachi. Algum problema falar de um personagem de Barão? Alguém que observa e conhece o distrito, sua gente e que acima de tudo tem um orgulho danado dessa terra.

Barão é Barão, né Vitachi? E ponto final. Terra de ar boêmio, um misto de diferentes estilos, raças, gerações, gente de todas as partes, intelectuais, gente simples, batalhadora, como o Vitachi. Meu editor me deu uma bela pauta. E o Vitachi mal sabia que seria a minha reportagem daquela edição!

 

                                                          

Tio André em...

Episódio 1: Alguém apaixonado

Se apaixonar é tão difícil. Não? Pelo menos penso e acredito que sim. Ainda mais quando se é virginiano, como eu, perfeccionista e exigente com a vida e com as pessoas. Mas quando o cupido lança sua flecha o que é feio se torna belo, o que é diferente se torna especial e o que é estranho, lhe parece conhecido, familiar...

Dá pra contar as vezes que me apaixonei. Mas dessas poucas vezes... Elas foram inesquecíveis! Marcam momentos de minha vida. O primeiro dos amores foi Soninha. Filha do Seo Tatá. Tatá? É, ele tinha um nome grande, difícil e então...era Tatá. Homem religioso, só deixava eu levar Soninha no cinema após irmos rezar o terço em sua casa. E fazia questão do rosário ser rezado em uma hora. Uma hora de penitência. Mas eu amava Soninha e ela merecia tamanho sacrifício...

O lado bom de estar apaixonado é acordar sorrindo e dormir ainda mais feliz. Ver o seu amigo complicado, cheio de neuroses por que tem 47 anos e ainda mora com a mãe, de uma outra maneira. Não esquentar com o estresse do seu chefe, nem com as piadinhas do zelador depois que toma umas. Ter vontade e mais vontade de trabalhar. Se olhar no espelho e se ver bonito, sem barriga, com vida e charme para dar umas piscadinhas por aí para as mocinhas de 20.

No ato de se apaixonar, primeiro, vem o encantamento. A vontade de ter a pessoa junto. Depois, vem a imaginação. Putes, ela é a pior de todas as suas inimigas, pois ela te faz ver tão longe, te faz viajar tão além, que você acaba não vendo obstáculos, barreiras e defeitos. Mas vem acompanhada da fantasia.

Clotilde sabe bem disso. Já na segunda quinzena de nosso namoro, combinamos de nos encontrar no restaurante Sujinho da Avenida Ipiranga, em São Paulo. Disse que tinha uma surpresa para mim. Nem bem estacionei o carro, pude avistá-la, abraçando um cara mais novo. Fui tirar satisfação. Traição não! Já cheguei com um olhar avassalador. Ia pegar o cara pelos colarinhos. Clotilde pediu calma. Era o seu irmão do interior aquele rapaz. Essa era a surpresa...

Bem, quando você ama, se vê num filme como "Casablanca" e que o final é o mais feliz. Nem sempre...

O lado ruim é não ser correspondido. É como se lhe jogassem um balde de água fria, é como algo entalado na garganta, uma dor bem lá no fundinho da alma...

Rita sempre detestava meus presentes, dizia escancaradamente que na primeira oportunidade pegaria o avião e moraria nos Estados Unidos. Sozinha. Sem homens, sem capacho e sem guarda-costas. Um certo dia me chamou para uma conversa. No fundo, até que eu já sabia o teor de nosso encontro. Devia ter conseguido alguma oportunidade no exterior. Estava certo. Me comunicou:

-Vou para a Flórida.

-Você sempre sonhou sair do país, viver sozinha.- quis ser seco e duro.

-Não vou sozinha! –disse –Pronto. Pensei: tinha um amante. - Vou eu e Alfredo. –Alfredo era o Poodle de estimação.

Por isso prefiro ficar sozinho. Sem dor de cabeça. Sem gastos diários com cinema, restaurante, presentes e outras coisas mais...como, por exemplo, a ração do Alfredo. É, era eu quem bancava a comida daquele ser que ela preferiu.

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